A calçada que ninguém conseguia usar
Encontrei uma senhora tentando andar na própria calçada. O mato avançou tanto que a passagem virou matagal venenoso.
Eu encontrei uma senhora que tentava andar na própria calçada e não conseguia. O mato tinha crescido tanto que a terra do jardim transbordou para a calçada, e o que era espaço de caminhar virou uma barreira coberta de vegetação densa, difícil e, em alguns pontos, venenosa.
A planta que cresceu ali era a coroa de cristo. Bonita para quem não sabe. Perigosa para quem sabe demais. Os vizinhos reclamaram para a prefeitura. A prefeitura não resolveu. A calçada foi ficando intransitável.
Eu estava passando pela rua quando vi a situação. Conversei com a moradora, uma senhora que, com dificuldade, apontava para o espaço que um dia foi calçada e agora era um matagal. Eu não perguntei se ela queria ajuda. Eu ofereci. De graça, como sempre.
O trabalho foi demorado e exigente. Cortar a coroa de cristo exige cuidado. Retirar a terra que avançou sobre a calçada exige paciência. Usei enxada, ancinho, roçadeira e soprador em sequência, reconstruindo o espaço centímetro por centímetro, devolvendo à calçada o seu propósito mais simples — ser um lugar por onde as pessoas possam passar.
Em determinado momento, ela se aproximou para ver o que estava acontecendo. Ficou em silêncio por um instante, olhando o espaço que estava sendo recuperado. Depois disse, baixinho: "Já tá melhorando, né?"
Três palavras. Cheias de alívio.
Quando tudo ficou pronto, ela olhou para a calçada e disse o que não cansava de repetir: "Agora sim, tem uma calçada para andar aí de novo." Simples assim. Não precisava de mais nada.
No Brasil, espaços públicos mal cuidados viram paisagem invisível para quem passa rápido. Para quem mora ao lado, são uma batalha diária. O Terra Gentil escolhe ver o que os outros se acostumaram a ignorar, e então faz algo a respeito.