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História do canal

Dona Cristina e o marciano da gentileza

A primeira pergunta de Dona Cristina foi séria: "Você me garante que você é da Terra?" Ela já tinha visto muita promessa virar nada.

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A primeira pergunta que Dona Cristina me fez foi séria. Não era curiosidade. Era desconfiança legítima, de quem já viu muita promessa virar nada.

"Você me garante que você é da Terra?"

Ela queria saber se eu era mesmo gente daqui, da Terra mesmo, porque o que eu estava oferecendo parecia coisa de outro mundo. Alguém querendo limpar um jardim inteiro sem cobrar nada? Dona Cristina tem 78 anos e nunca tinha visto isso.

As duas pontas do terreno da casa dela estavam tomadas por mato alto e lixo. Não era descuido dela. Era abandono de quem devia cuidar e não cuidava, de vizinhos que não moravam ali e ignoravam o problema, da prefeitura que notificou em vez de ajudar. O mato alto trouxe dengue, trouxe escorpião, trouxe a possibilidade de multa. E ainda tinha lixo hospitalar jogado ali — agulhas, tubos, ataduras, garrafinhas de soro. "Fiquei com nojo de pegar", ela me contou.

Quando confirmei que o serviço era mesmo de graça, ela colocou as mãos juntas e exclamou: "Meu Deus, eu não acredito! Vou passar o Natal sem ter os matos dos meus lados." Era dezembro. A limpeza foi o presente de Natal que ela não esperava.

Eu trabalhei no sol, cortando, varrendo, soprando, recolhendo tudo o que não deveria estar ali. No meio do trabalho, um vizinho parou, observou, foi embora e voltou com uma sacola de revistas. Nenhuma grande cerimônia. Só um gesto de quem ficou tocado pelo que estava vendo.

Quando o espaço ficou limpo, ela não coube em si. "Parece mentira, mas é real. Inacreditável." Depois me abençoou com as palavras da forma mais simples e mais bonita que existe.

Ela nunca chegou a confirmar se eu era marciano ou não. Mas uma coisa ficou clara — o tipo de gentileza que eu pratico não é muito comum neste planeta.