Você veio em boa hora
"Você veio em boa hora." Quatro palavras que valeram cada gota de suor naquele dia.
Há frases que cabem em molduras. Há frases que a gente guarda sem saber que ia guardar.
O morador da esquina me disse uma dessas quando viu o trabalho pronto: "Você veio em boa hora."
Quatro palavras. Eu disse depois que elas valeram cada gota de suor.
A esquina estava num estado difícil. A calçada e o jardim lateral tinham crescido para além do que qualquer um conseguiria controlar sozinho. O mato era alto e denso, e a faixa de terra ao longo do meio-fio parecia mais floresta do que calçada urbana. O morador não estava dando conta. Não por falta de vontade, mas porque há situações que simplesmente crescem além da nossa capacidade de resolver.
Eu cheguei com a roçadeira nas costas e Loli, o papagaio que às vezes acompanha as missões, ao lado. Não precisei de muito convite.
O trabalho foi extenso. A grama arrancada encheu 14 sacos grandes de lixo. Quatorze. Eu mostrei um por um para o morador, que ficou olhando com uma mistura de surpresa e alívio.
No meio do trabalho, passou pela calçada um homem chamado Francisco. Ele parou, ficou observando e perguntou se podia tentar. Eu entreguei a roçadeira. Ele foi um pouco torto no começo, depois foi pegando o jeito. Eu ri e falei: "Desse jeito ele vai pegar a minha vaga aqui de jardineiro da Terra Gentil."
Antes disso, outro passante tinha gritado do outro lado da rua: "Força aí, você vai conseguir!"
É assim que o Terra Gentil funciona. Eu começo o trabalho, e de alguma forma a rua começa a participar.
Quando ele me disse "você veio em boa hora", eu não sabia exatamente o que estava por trás daquela frase. Mas senti que era verdade. E às vezes é isso que basta.